A estratégia já está em curso e será priorizada pelo Itamaraty ao longo do primeiro semestre, antes das eleições presidenciais.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva recalibrou a política externa para reforçar uma face de pragmatismo e tentar se aproximar de governantes de direita, diante de um cenário adverso na América Latina, com a nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump e a ascensão de governantes alinhados ao americano.
A estratégia já está em curso e será priorizada pelo Itamaraty ao longo do primeiro semestre, antes das eleições presidenciais. Nesse período, Lula pretende fazer alguns deslocamentos ao exterior. O governo já mobilizou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para estreitar laços em viagens precursoras ou mesmo próprias, levando a visão do Palácio do Planalto.
Em ano eleitoral, Lula quer reforçar uma imagem mais pragmática da política externa e evitar desgastes em temas sensíveis, como a Venezuela.
Na segunda-feira, dia 26, Lula conversou por quase uma hora ao telefone com Donald Trump, em mais uma etapa da construção de um relacionamento marcado por interesses opostos e um passado recente de embates. Eles agendaram para o fim de fevereiro uma visita de Lula a Washington, oportunidade que poderá selar a mudança de rota com os Estados Unidos de Trump.
Na terça-feira, dia 27, Lula desembarcou no Panamá para dar mais mostras da presença brasileira na região e dizer aos líderes latino-americanos que está disposto a trabalhar com todos, independente de ideologia, e em projetos concretos.
O presidente vai reforçar a visão que expôs em artigo ao The New York Times, uma proposta alternativa à repaginação da doutrina Monroe, sugerida por Trump, e defende que o hemisfério pertence a todos, contra a ideia de “quintal” americano.
A chancelaria brasileira trabalhou nos bastidores para que, durante a viagem à Cidade do Panamá, uma forma de retribuir as visitas do presidente José Raúl Mulino, Lula consiga manter as primeiras reuniões bilaterais com os novos presidentes do Chile, José Antonio Kast, e da Bolívia, Rodrigo Paz. Ambos de direita, eles derrotaram a esquerda em eleições recentes e não tinham relações prévias com o petista.
A reunião com Kast foi um dos primeiros compromissos de Lula no Panamá. Ele assumirá o cargo em março, sendo o primeiro presidente eleito no país com a imagem vinculada a elogios passados à ditadura chilena de Augusto Pinochet. Ele é aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e crítico frequente de Lula, a quem associou à corrupção.
“Os desafios da América do Sul em matéria de segurança, progresso econômico e superação da pobreza são enormes e a colaboração de Estado, entre Chile e Brasil, pode liderar a mudança que nossa região necessita. Agradeço a reunião construtiva com o presidente Lula”, registrou Kast, em suas redes sociais.
“Reiteramos a importância de manter e aprofundar as relações bilaterais entre Brasil e Chile, destacando a disposição de ampliar a cooperação em áreas como infraestrutura, energia renovável, comércio e turismo”, disse Lula, ao divulgar fotos e vídeos do encontro.
“Enfatizei que o programa Rotas de Integração Sul-americana está estruturando dois corredores bioceânicos que utilizarão portos chilenos para facilitar a integração entre Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Chile, fortalecendo a conectividade regional. Tratamos ainda da necessidade de promover a estabilidade regional, reforçar a segurança pública e intensificar ações conjuntas de combate ao crime organizado, reconhecendo a importância da cooperação para enfrentar desafios comuns”, citou o brasileiro.
Agora, Lula também esperar conversar com Paz, que encerrou duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo na política boliviana.
Integrantes do governo pregam internamente que o presidente pratique uma política externa despida de qualquer “verniz ideológico” e que não pode permitir a formação de um “Grupo de Lima” contra o Brasil – uma referência à aliança de direita que funcionou como um foro de articulação política contra o ditador Nicolás Maduro, na Venezuela.
Desgaste com o chavismo
Lula já havia se distanciado de Nicolás Maduro em 2024, após a fraude eleitoral em Caracas, depois de ajudar a reabilitar o ditador agora deposto e preso, em 2023. Ele admitiu internamente o quanto se desgastou com o tema Venezuela.
No ano passado, o governo já tinha percebido o choque de realidade e diagnosticado que as alianças políticas na América Latina, e seus principais foros, estavam fragilizados e bloqueados para amplos consensos e decisões pró-integração.
O presidente pretende continuar a defendê-la, mas admite o fracasso de tentativas de recriar a Unasul (União de Nações Sul-americanas), ou obter sucesso diplomático na Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos).
E quer focar em temas caros e sensíveis eleitoralmente, a exemplo de comércio e combate ao crime organizado, com propostas de cooperação concretas, como um plano enviado ao Departamento de Estado e o centro de cooperação policial em Manaus.
O governo vislumbra agora uma nova onda à direita que deve isolar a esquerda no poder apenas no México e no Uruguai, entre os países mais relevantes. Há eleições neste ano, além do Brasil no Peru e na Colômbia, com favoritismo para nomes da direita. Nos últimos anos, o petista viu aliados, aos quais apoiou, derrotados também no Equador e na Argentina.
A diplomacia quer conter danos e reduzir riscos. Apesar da boa relação com Trump, integrantes do governo ressaltam que nada garante que, diante de uma janela e vislumbre chance, o governo americano não tente alguma interferência eleitoral, caso consiga apoiar um presidente à direita com chances de vitória e que se mostre mais simpático ao americano do que Lula. O temor existe no Palácio do Planalto. Uma prioridade é tentar preservar as eleições de interferências externas, entre elas, no ambiente digital.
Como parte da estratégia, o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) viajou nesta semana a países governados pela direita em busca de abertura de relacionamentos políticos. O chanceler faz três visitas próprias – e acompanha Lula no Panamá.
Ele visitou na segunda em La Paz o ministro das Relações Exteriores, Fernando Aramayo, e reforçou o desejo de Lula de se reunir com o presidente boliviano.
Nesta quarta-feira, 28, Vieira acompanhará Lula no Panamá. Na quinta e sexta-feira, dias 29 e 30, Vieira e sua equipe para a América Latina desembarcam em Lima, para reunião com o chanceler peruano Hugo de Zela, e em Quito, para reunião com a ministra equatoriana Gabriela Sommerfeld.
“Não focamos na orientação política de cada governante”, disse a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe, para quem o País vai manter relação prioritária vigorosa e intensa com todos os países e mostrar capacidade de dialgoar, mesmo com divergências.
A despeito dos embates com Javier Milei e do diálogo político ainda travado com Lula, integrantes do governo ressaltam que existe uma relação funcional com a burocracia argentina e que os interesses privados também fluem, dada a integração entre as economias.
Estadão Conteúdo.


