Governadora do DF afirmou que ex-aliado esperava continuar influenciando sua gestão

A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), afirmou que seu antecessor, Ibaneis Rocha (MDB), achou que ficaria à frente do governo por meio dela, acusou-o de misoginia e disse que nunca considerou deixá-lo de fora de sua chapa.
Celina disse que foi pega de surpresa com o vídeo gravado por Ibaneis na semana passada em que ele diz estar decepcionado com ela e sugere um “realinhamento” entre os dois. A governadora afirmou que está enfrentando o problema que ele deixou no BRB, o banco distrital, sem ataques, e que ele deveria estar orgulhoso.
“Eu fui pega de surpresa com a fala dele de decepção. Mas é incoerente a fala dele porque, com a situação precária [em] que ele me deixou o estado, ele tinha que estar muito orgulhoso, porque eu estou conseguindo pagar as contas”, disse à reportagem.
“Estou enfrentando o problema que ele deixou do BRB de frente, sem atacá-lo. Fiquei um pouco surpresa com a fala dele, mas talvez seja pela questão de [ele] achar que iria continuar governando através de mim. Um pouco também misógino isso, achar que as mulheres são comandadas ou podem ser marionetes”, completou.
Ibaneis deixou o Governo do Distrito Federal em março para disputar uma das duas vagas ao Senado, em outubro. O ex-governador foi o principal fiador político da tentativa frustrada do BRB de comprar o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Apesar de a operação ter sido barrada pelo Banco Central, o BRB segue com um rombo nas contas por causa da compra de ativos e carteiras de crédito fraudulentas do Master. Tanto Vorcaro como o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa estão presos e negociam um acordo de delação premiada.
Políticos ouvidos pela reportagem afirmam que Celina tem evitado Ibaneis. Uma liderança que preferiu não se identificar diz que o emedebista reclamou que não tem conseguido falar com a governadora sequer por telefone.
O acordo negociado antes do escândalo BRB-Master reservava uma vaga ao Senado no palanque de Celina para Ibaneis e outra para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), de quem é amiga. Apesar disso, a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) afirma que também vai disputar o Senado em uma dobradinha com Michelle.
No vídeo gravado por Ibaneis na quarta-feira da semana passada (20), o presidente do MDB, deputado federal Baleia Rossi, diz que “não há hipótese de o MDB não participar da chapa majoritária”.
Questionada sobre o impasse, Celina afirmou que a retirada de Ibaneis “nunca foi cogitada”.
“Nunca foi falado que ele não teria [espaço na chapa], até porque ele tem partido. Se ele tem partido, ele tem a vaga dele na majoritária”, disse Celina à reportagem.
Para aplacar o mal-estar com a base aliada, a governadora se reuniu com os presidentes dos partidos na segunda-feira (25) ao lado do secretário da Casa Civil, Gustavo Rocha (Republicanos), seu candidato a vice.
Segundo o relato de um dirigente, Celina disse que gostaria de manter seu grupo político unido, incluindo o MDB -apenas PSB, Cidadania, PT e PSOL se declaram oposição. A governadora também fez uma espécie de mea culpa, dizendo que a crise envolvendo o BRB tem consumido boa parte do tempo dela.
Outra situação que preocupa a governadora do DF é a possibilidade de o ex-governador José Roberto Arruda (PSD) disputar as eleições.
Arruda tenta voltar à política depois de quase 15 anos. Pivô do mensalão do DEM, o ex-governador foi preso e condenado em processos derivados da operação Caixa de Pandora, de 2009, quando foi filmado recebendo um maço de dinheiro.
A candidatura dele depende do resultado do julgamento em curso no plenário virtual do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre as mudanças na Lei da Ficha Limpa, que reduziram o prazo que um candidato pode ficar inelegível.
O julgamento começou na sexta-feira (22) com o voto da ministra relatora, Cármen Lúcia, para restaurar o texto original da lei. A ministra considerou a alteração feita pelo Congresso Nacional no ano passado como um “patente retrocesso”.
Celina se reuniu com o ministro do Supremo Cristiano Zanin no último dia 12. Um dos assuntos discutidos na reunião, segundo relatos feitos à reportagem, foi o julgamento da Ficha Limpa.
Inicialmente, a agenda do ministro indicava que a reunião com Celina tinha duas pautas: Ficha Limpa e BRB. Depois, a pedido do Governo do Distrito Federal, o Supremo alterou a agenda de Zanin e suprimiu a informação da Ficha Limpa.
A governadora negou ter tratado das mudanças na Lei da Ficha Limpa com Zanin -o que diverge das informações recebidas pela reportagem. Perguntada sobre a alteração na agenda, Celina não respondeu.
“A gente tratou sobre BRB. A gente não entrou nesse tema, não”, disse. “Não fui que pedi a agenda, foi a assessoria. Então não sei.”
O julgamento do caso no STF ocorre em plenário virtual, em que os votos são depositados por escrito. Os demais ministros ainda não se manifestaram. A sessão vai até sexta (29), mas pode ser interrompida se houver pedido de vista ou de destaque para o plenário presencial. (A reportagem é da Folha de São Paulo)



