Setores sucroenergético e da construção civil concentram o maior número de casos no Estado

Elias acordava às 4h da manhã dentro de um barraco sem banheiro, dividido com outros 15 trabalhadores. A primeira refeição do dia era pão com margarina e café ralo. Às 5h, já estava no canavial, no sul de Goiás, enfrentando jornadas exaustivas sob o sol forte, até o corpo não aguentar mais. O almoço chegava frio, muitas vezes azedo. Água potável era rara. O banheiro mais próximo ficava a quilômetros de distância. Quando a noite chegava, Elias contava nos dedos o dinheiro que quase nunca vinha.
“Eles prometiam um salário bom, casa boa, comida boa. Mas quando a gente chegava, era tudo mentira. A gente trabalhava feito escravo mesmo”, conta o maranhense de 34 anos, resgatado em outubro de 2025 de uma usina na região de Itumbiara. Ele é um dos 242 trabalhadores libertados de condições análogas à escravidão em Goiás no ano passado, segundo dados da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE).
O número representa aumento em relação a 2024, quando foram resgatadas 155 pessoas, mas ainda fica abaixo dos 753 registros de 2023, ano marcado por grandes operações no setor sucroenergético. Os dados revelam que o problema persiste no estado, concentrado principalmente em dois setores: plantio e colheita de cana-de-açúcar e construção civil.
A promessa que vira pesadelo
Elias saiu de uma cidadezinha do interior do Maranhão em busca de trabalho. A família passava necessidade. Um conhecido apareceu falando de uma vaga em Goiás, com salário de R$ 2 mil por mês, casa e comida. Ele nem pensou duas vezes. Juntou a roupa, se despediu da mulher e dos dois filhos pequenos e embarcou em um ônibus lotado rumo ao Centro-Oeste.

Chegou à fazenda depois de três dias de viagem. Foi quando percebeu que tinha caído em uma armadilha. O alojamento era um galpão improvisado, sem estrutura básica. Os colchões, velhos e rasgados, ficavam no chão. Não havia refeitório. A comida era servida em marmitas sujas.
“A gente ficava ali igual gado. Dormindo em cima de papelão, comendo o que davam. E o pior: não podia sair. Diziam que a gente devia pelo transporte, pela comida, pela moradia. A cada dia, a dívida aumentava”, relata.
Elias trabalhou quatro meses sem receber um centavo. Sempre que cobrava o pagamento, o gato — intermediário que aliciava trabalhadores — dizia que o dinheiro estava retido para pagar as despesas. A cada semana, inventavam novas dívidas. Ferramentas, botas, luvas. Tudo era descontado de um salário que nunca chegava.
A libertação veio quando uma denúncia anônima chegou à fiscalização do Ministério do Trabalho. Auditores-fiscais apareceram na fazenda sem avisar. Encontraram 38 trabalhadores em situação degradante. Elias e os demais receberam verbas rescisórias, seguro-desemprego e passagens de volta para casa. “Foi um alívio. Mas a tristeza de ter perdido meses de vida naquele lugar não passa”, diz.
O que caracteriza o trabalho escravo
O artigo 149 do Código Penal Brasileiro define o trabalho análogo à escravidão pela submissão de alguém a trabalhos forçados ou a jornadas exaustivas, sujeitando trabalhadores a condições degradantes de trabalho ou à restrição de locomoção por qualquer meio.
O perfil das vítimas
Elias e Marcos compartilham características comuns à maioria das vítimas de trabalho análogo à escravidão em Goiás. Ambos vieram de estados vizinhos mais pobres, em busca de oportunidades. Tinham baixa escolaridade e família para sustentar. A vulnerabilidade social os tornou alvos fáceis para aliciadores.
“O padrão se repete. São trabalhadores do Maranhão, Piauí, Tocantins, que migram em busca de trabalho. Os aliciadores aproveitam a necessidade e fazem promessas falsas. Quando a pessoa percebe, já está presa em uma situação de exploração”, explica Roberto Mendes.
Os alojamentos precários são um indicador constante. Barraco sem banheiro, água potável insuficiente, comida inadequada, colchões no chão, ausência de ventilação. As fiscalizações registram essas condições em fotografias que chocam pela precariedade.
Denúncias em alta
Goiás registrou, em 2025, o maior número de denúncias de trabalho análogo à escravidão desde o início da série histórica. Foram 219 denúncias ao Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Em comparação com 2024, quando foram registradas 165 denúncias, o aumento foi de 32%.
O crescimento também aparece nos dados nacionais do Ministério do Trabalho, que recebeu 4.515 denúncias em 2025, crescimento de 14,04% em relação ao ano anterior.
Roberto Mendes avalia que o aumento de denúncias é positivo. “Significa que as pessoas estão mais conscientes e menos tolerantes com a exploração. Cada denúncia pode salvar vidas. Por isso, é fundamental que a sociedade continue vigilante”, afirma.



